Vejam como são as coisas nesse país.Como parece que vivemos num conto de nosso querido Machado de Assis, mais especificamente em O Alienista.Um homem humilde resolve fazer um protesto, algo que todos os brasileiros deveriam mas não fazem. Decide solitariamente se jogar no Rio Tietê em São Paulo. Com uma bóia que parece uma câmara de pneu, um galho que lembra a valente lança de Don Quixote e uma bandeira em farrapos que representa perfeitamente o país que vivemos, navega a correnteza e tenta chamar atenção dos políticos e da sociedade. Então os bombeiros tentam convencê-lo em vão a retornar a margem do Rio, embora o senhor esteja completamente a margem de tudo no seu dia dia. Percebendo que não conseguiriam, convencê-lo mandam um bote resgatá-lo.Todos sabemos que o Tietê é um grande Rio que nasce lindo e puro e vai se cagando inteiro a medida que se aproxima do grande centro econômico do Brasil, a megalópole chamada São Paulo e quando envereda em meio ao trânsito caótico e segue seu destino vai recebendo cada vez mais porcarias e nojeiras geradas por esses humanos que habitam e administram a saúde do lugar.Seu Enildo Paulino, com a roupa do corpo representa o cotidiano de milhares de paulistas, cariocas, cearenses, brasileiros, enquanto um homem de luvas busca prevenir um fim trágico para tal situação.
Por fim Seu Enildo é retirado do rio de bosta. Içado a um bote de borracha que apenas o transportará novamente para outro Rio de bosta, esse composto por palafitas, compensados entre outros materiais que são recolhidos para construir pequenas casas onde famílias inteiras se espremem e passam dificuldades. Desse segundo Rio de bosta, a realidade, ninguém aparecerá com um bote para resgatá-lo e a seus semelhantes. São pessoas que só aparecem no noticiário quando se envolvem em algum tipo de tragédia, dessas que vendem jornais para outros parasitas sedentos por reconhecer que não são somente eles que estão jogados as traças e sim todos ao redor. Reconhecer a tragédia alheia é também um alívio muitas vezes, pois tira a sensação de solidão.
Então Seu Enildo dá um depoimento emocionado, coerente e digno. As lágrimas derramadas, por esse valente homem, escorrem para o Rio novamente e acabam se misturando a outros detritos. Talvez nunca mais tenha notícias de Seu Enildo, embora esteja sentindo uma saudade imensa dele, mesmo sem conhecê-lo. O que para alguns pode soar como demagogia de minha parte, ecoa dentro de mim como identificação direta, com o personagem em questão.
Um dia existirá um Brasil vivo, onde deixaremos de ser zumbis controlados por esse quadradinho mágico que nos diz o que fazer, o que comer, para onde ir e o que ser e conseguiremos zunir em direção a luz. Talvez demore séculos ou mesmo não chegue a ultrapassar o ano de 2012 quando o calendário Maia prevê o fim dos tempos. Porém é preciso acreditar, é preciso deixar a esperança de lado e transformá-la em ação, é preciso colocar em prática nossos planos e idéias, é preciso amor, mais do que "ibope". Um dia existirá um Brasil, consciente de seus direitos e atento a seus deveres, pois basta que tenhamos um pouco mais de coragem para levantar e lutar como fez seu Enildo, basta que tenhamos força de vontade para contrariar a lógica da alienação confortável, basta que alguns de nós se proponha a dar o primeiro passo e quando este dia chegar, quando os humildes tomarem consciência de seu poder, quando a favela se politizar, quando a classe média entender que é preciso mais do que só aplaudir, quando os poderosos não conseguirem mais se isolar nesse universo paralelo cercado de milícias armadas que chamam de segurança particular, então um novo ciclo começará.
No fim da reportagem o âncora da Tv Globo anuncia que Seu Enildo Paulino fora levado para Santa Casa e está em observação e leiam com atenção, AGUARDA PARA SER AVALIADO PELO SETOR DE PSIQUIATRIA....
Quem precisa ser avaliado pelo setor de Psiquiatria é realmente seu Enildo?